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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários: O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Cherno Baldé (2026)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentário do nosso colaborador permanente Cherno Baldé (que "firma" em Bissau), ao poste P28089 (*), que passa a ser inserido na série "S(C)em Comentários" (**)

(...) Eu não posso concordar com o humilhante termo “compra” quando se trata de termos de acordo matrimonial entre duas pessoas, um contrato social selado entre as duas famílias, como acontece na tradição fula, que conheço melhor. 

Os termos do contrato, mesmo não sendo escritos, preveem um acordo aceite e garantido entre as duas partes interessadas e mais ou menos equilibrado, na presença de mediadores e testemunhas, no sentido de garantir socialmente os direitos do casal dentro da família do noivo e acautelar as situações em caso de separação/divórcio futura.

Durante a minha infância, talvez por influência externa (convivência com a tropa no quartel e frequência da escola portuguesa), tinha repudiado por completo a prática tradicional e tinha jurado a mim mesmo que não seguiria esta via quando chegasse a altura de o fazer e cumpri o juramento, mas hoje colocado diante da problemática dos meus filhos, acho que nem tudo é a preto e branco.

Os meus filhos nasceram e sempre viveram na cidade, alguns já terminaram (dois) e outros ainda estudam e todos estão no exterior,  entre Portugal, Brasil e Marrocos. O mais velho tem 30 anos e o mais novo 19 anos. Não querem saber de casamento nem de ter filhos, não os posso obrigar e nem eles se decidem a tal, de modo que a probabilidade de não virem a se casar é muito elevada. 

Também tenho sobrinhas que cresceram em minha casa, algumas (duas) já estão acima dos 30 anos e ainda não estão casadas, não porque não querem, mas porque sozinhas não conseguem arrumar um marido e, quanto aos rapazes, cada vez é mais improvável o interesse em contrair matrimónios diante do desemprego e das crises cíclicas que o país e o mundo atravessam.

Nas zonas rurais, embora a vida e as regras costumeiras continuem a ser as mesmas diante da lei, a realidade está a mudar a olhos vistos e cada vez mais as relações sociais e matrimoniais estão a ser condicionadas pelo que se passa no país e no mundo.

Um fenómeno, mais ou menos novo,  que apareceu entretanto, é a preferência por noivos emigrantes “europeus”, que estejam dispostos a levar a sua noiva para o país de emigração ou para as cidades em residências separadas. 

Nesses casos há descontos importantes, as noivas são quase sempre favoráveis e os pais podem dar muitas facilidades, na expetativa de que as filhas tenham a chance de viajar para o “paraíso” europeu. (...)

Cherno AB

2.Comentário do editor LG:
O comentário acima surge como resposta a um pedido nosso, ao Cherno Badlé, para nos falar um pouco de comno vai hoje a instituição "casamento", na sua terra, entre o seu povo,,,

(...) O casamennto (e todos os rituais à volta dele, incluindo o "dote") é um fenómeno que transcende culturas, embora se manifeste de formas muito diferentes, às vezes radicalmente, conforme o contexto social, económico e até histórico.

Os meus camaradas (e eu próprio) pecavam por "eurocentrismo" ou "etnocentrismo", ao ver estas práticas como "exóticas" ou até "atrasadas", quando na realidade eram/são sistemas de trocas sociais profundamente enraizados, com lógicas próprias que nada têm a ver com a nossa visão ocidental de casamento, da mulher e do homem, da família, da sexualidade, da reprodução...

O "barlaque" na Guiné (*) e e especialmente entre os Fulas (que eu conheci melhor) não era/é apenas uma "transação económica", mesmo sob a forma de um pagamento simbólico (em vacas, noz de cola, panos, etc.), era/é sobretudo um "contrato social", uma forma de "aliança entre famílias", e até uma garantia de estabilidade para a mulher (em sociedades camponeses onde não havia/há  as modernas formas de proteção social, na doença, no acidente, na velhice, na morte)

Para os soldados portugueses (e muitos deles vindos de meios rurais onde o "dote" também existia, mas de forma muito menos formalizada) ver os seus camaradas fulas a "comprar mulher", foi de facto um choque cultural enorme.

O que os militares portugues não percebiam (nem foram preparados culturalmente para isso, não havia "psicólogos" quanto mais "antropólogos", em Mafra, nas Caldas da Rainha, em, Tavira,em Santarém, em Vendas Novas, em Lamego) era que, na Guiné, o "barlaque" (ou o "pidi noiva") não era uma transação comercial, mas sim um rito de passagem e um mecanismo de proteção.

Para um fula, o pagamento do "barlaque" validava o casamento perante a comunidade, garantia o estatuto social da mulher (e da sua família),  criava laços de solidariedade entre grupos, clãs, "chãos" e (poucos o sabiam) podia ser reembolsável em caso de divórcio, o que dava, teoricamente, à mulher uma certa segurança económica.

O eurocentrismo e o entrocentrismo faz-nos sempre ou quase sempre julgar (mal) o que não compreendemos ou não conhecemos.

Não sei como é que as coisas estão hoje, na tua terra, meu mano Cherno...(...) (**)

sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > "Fajonquito em festa... Com a CART 2742 (1970-72), o ambiente entre a tropa e a população melhorou bastante, atingindo níveis nunca antes vistos. 
.
A foto de 1971 (amigavelmente enviada pelo ex-fur mil José Bebiano) mostra uma calorosa receção de um grupo de artistas vindos da metrópole para animar a malta. Ao meio e ao lado de uma das artistas pode-se ver o nosso saudoso Cap Carlos Borges de Figueiredo. 

O rapazinho nas mãos do homem dos óculos escuros é o Carlitos, filho de um soldado português. (Mais tarde, iria à procura do pai, tendo aquele recusado o encontro à última da hora.)

 O ex-furriel José Bebiano, que era de rendição individual, tendo feito toda a sua comissão em Fajonquito poderia, eventualmente, identificar os soldados que acompanham o seu Comandante nesta foto." (Foto de José Bebiano; legenda de Cherno Baldé).




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > Dois furriéis milicianos, à esquerda o Alcino Franco Jorge da Silva (da CART 2742, morto em 2/4/1972, juntamente com o cap art Carlos Borges de Figueiredo, o alf mil José Fernando Félix, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida) e o José Bebiano, à direita (era de Informações & Operações, de rendição individual,  e esteve  ainda uns meses em Fajonquito, com o José Cortes,  ex-fur mil at inf  CCAÇ 3549/BCAÇ 3884, Fajonquito, 1972/74, a companhia que foi render a CART 2742 ). 

 A CART 2742 pertencia ao BART 2920 (Bafatá, 1970/72). (O José Bebiano, em 2010, era ex-professor de Educação Física em Moura, aposentado desde 30/11/2009; nunca respondeu ao nosso  convite para integrar a Tabanca Grande; tem página no Instagram)
 
Fotos (e legenda): © José Bebiano (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagemcom'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. Comentário de Cherno Baldé na página do Facebook da Tabanca Grande, 5 de junho de 2026 17:42, com referência ao poste P28073 (*)


O Chico de Fajonquito,
com 14 anos (c. 1974)
(...) Quando falei deste caso no Blogue (**), referi que estava, no momento do rebentamento da granada, a uns 100 metros, na verdade, após verificação, constatei que estávamos, eu e um colega, a menos de 50 metros do local. A nossa sorte foi que tudo aconteceu dentro do edificio que servia de secretaria geral e escritório do capitão da companhia. 

Ouvimos o rebentamento e a seguir uma nuvem de poeira se levantou acima da cobertura de zinco, estávamos na época seca. A seguir, fugimos do local a sete pés e só voltámos quando a população se reuniu, à distância, para se inteirar do ocorrido e partilhar o sentimento de pesar e de luto. 

Foi um dia triste para todos os presentes, sem exceção. De facto, o depoimento do ex-furriel Rui Osório Oliveira (*)  é verídico e oferece-nos detalhes importantes que fazem toda a diferença sobre este caso e, a meu ver, a tese do acidente ganha vulto, afastando a de homicídio premeditado. 

Também, ficamos a saber que, o que estava em causa seria a possibilidade de continuar na tropa e não, necessariamente, na Guiné. 

2. Comentários anteriores do Cherno Baldé sobre esta tragédia (homicídio ? acidente ?) e duas das suas vítimas, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, natural de Vila Pouca de Aguiar, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida, natural de Portel- (Já agora acrescente-se o concelho da naturalidade das outras duas vítimas deste "acidente com arma de fogo": o fur mil Alcino Franco Jorge da Silva era de Cascais;  o alf mil José Fernando Félix era de Moimenta da Beira.)


Cherno Baldé
(c. 2009)

(...) Pela versão que prevaleceu entre nós, alegadamente, o soldado Almeida estava revoltado por não poder voltar à sua terra após várias comissões de serviço, em virtude de um castigo a que estava sujeito e tinha decidido acabar com a sua vida e com ele, também, a do comandante da companhia. 

Claro que isto faz parte dos rumores que circularam, na ausência de informações oficiais, na altura.

Quero dizer a quem me quiser ouvir, e isto por minha conta, que o Almeida era um soldado "profissional", muito aguerrido,  que dificilmente poderia levar uma vida civil pacata no meio indígena ou gerindo uma lojeca ou um restaurante para servir a malta europeia numa cidade qualquer da Guiné. 

O Almeida não era um soldado vulgar e via-se claramente que não se tinha integrado na companhia dos restantes soldados e milicianos pelos quais  quais ele nutria muita pouca consideração e/ou respeito.

Tão pouco se podia integrar no meio dos pretos,  embora se identificasse com eles. Penso que, antes de mais, o nosso amigo Ameida (ele era de facto um amigo e defensor das crianças que frequentavam o aquartelamento, ai de quem se atrevesse a fazer mal a uma criançaa na sua presença!) deve ter sido mais uma das inúmeras vitimas daquela guerra terrível. (..) (**)


(...) "O que vou dizer pode parecer paradoxal se não incongruente. O sr. Carlos Borges de Figueiredo, ao contrário de muitos outros, foi um capitão pacifista pois ele tinha-se distinguido, sobretudo, pela promoção da educação entre as crianças nativas (o número de alunos na escola local tinha aumentado significativamente facto que poderia estar ligado ao ambiente de paz criado e uma grande sensibilidade pelos problemas sociais da população) e organização de eventos sócio-culturais que, não só afastavam, por algumas horas, o espectro da guerra e da morte entre a tropa mas eram também muito úteis e importantes na construção de relações de aproximação e de confiança com a populaçã local, tão prezada por general Spínola.

Foi nessa altura que, pela primeira vez, recebemos a visita de grupos musicais vindos da metrópole. Numa dessas visitas, lembro-me da presença de uma ou mais mulheres cantavam o Fado. A música era muito morna, lenta demais para o nosso gosto temperado na ritmada, quase violenta dança de tambor mandinga. 

No meio de tudo isso, não nos escapou um detalhe importante. Notámos a deferença e o extremo respeito com que todos a(s) tratavam. O respeito dado àquela(s) mulher(res) contrastava de forma flagrante com a maneira como habitualmente lidavam com as nossas mulheres, fossem elas grandes ou pequenas. E não estou a referir-me, claro a esta, à esposa do capitão que, também, deve ter visitado Fajonquito.

Ele ficou conhecido no meio da populacao local com o nome de Capiton Lelö Dahdè, o que na lingua fula significa o Capitão Cabeça inclinada. Talvez aqueles que o conheceram de perto me possam corrigir, parece que ele tinha o hábito de inclinar ligeiramente a cabeça para um dos lados, daí o nome com que o baptizaram e que fica para a história." (...) (***)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________


terça-feira, 19 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné - Bissau > Bissau > Setembro de 2022 > " Uma das bideras no mercado improvisado de Bairro d’Ajuda (Espaço Verde), Decoliciana Malú Mango,  Reportagem de Filomeno Sambú

Fonte: Jornal O Democrata, 24 de setembro de 2022 (com a devida vénia...)



Cherno Baldé (tem 330 referências
no nosso blogue)


1.  Comentários (*) do nosso colaborador permanente Cherno Baldé que "firma" em Bissau:

Caros amigos,

A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto é,  o esforço do "dia a dia", a luta diária, para se sustentar a si e a família. Mas, atenção que ser "Bideira" não significa ser miserável, pois da mesma forma que as "lavadeiras" não forneciam a parte mais importante do sustento das famílias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada à berma da estrada ou que deambula à procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do quotidiano não pode sustentar uma família, é tão somente um complemento das mulheres para não ficarem em casa sem fazer nada de útil. 

Esta é a parte económica e financeira que o justifica. Outra parte, mais social e humana,  é a necessidade da interação com o mundo, com as pessoas fora do círculo familiar para efeitos de saúde mental em contextos urbanos menos abertos para pessoas de origem rural, habituadas à interação social permanente com o meio ambiente e com as pessoas e que ficam um pouco perdidas sem esta alimentação da palavra e da "fofoca" habitual nas aldeias e meios urbanos do interior. 

Uma particularidade bem marcante dessa realidade é o facto de que, em Bissau, mesmo vivendo numa casa cercada com muros, as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, poucos aguentam o sufoco de viver intramuros, preferem a rua, as feiras e a liberdade de deambular com uma cesta de produtos agrícolas com valor abaixo de 1 euro.  Vão à cidade, para os mercados dos Bairros ou ao Bandim, muitas vezes à revelia dos maridos e familiares que não concordam com este "nomadismo" com disfarce de "Bideira". 

As verdadeiras "Bideiras"encontram-se dentro dos mercados na revenda do pescado, legumes e frutas. Estas,  sim, são vendedeiras de verdade e com rendimentos que rivalizam com os comerciantes (homens) de nível médio no mercado nacional, algumas fazendo actividades de import-export de diversos produtos e bens de consumo.

Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela não tem fome, pelo contrário, está obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionário público ou ainda com o marido no exterior e à espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para não morrer de ansiedade ou de solidão,  como acontece um pouco por toda a parte.

Pelo nome Ramatulai (de origem árabe, Benção/Graça de Alá) percebemos que é fula (subgrupo fula-preto), e há muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muçulmano e da região da Africa Ocidental e de alguns países do Magrebe (Marrocos, Argélia...)


segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 14:00:00 WEST

É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia. 

Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos. 

É sempre justo e útil a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.

segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 23:39:00 WEST


(...) Ramatulai como nome feminino ou Aramatulai ( que a paz ou benção esteja contigo) como expressão religiosa é muito presente no meio muçulmano e equivaleria à popular "Maria da Graça" no meio português-

Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matrícula lhe atribuiram o nome português "Maria da Graça", logo a junção dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, também, redundante, mas que sõ estou a descobrir agora, coisas que a ignorância e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integração de culturas e crenças religiosas. 

A força simbólica do nome está no facto de que, em todas orações, que se fazem cinco vezes durante o dia, as últimas palavras que se ouvem, sistemanticamente, são as seguintes : 

"Assalamu-alaikum wa-rahmatullai Wa-barakatuh", ou seja, "Que a paz, a misericordia e as bencãos de Allah estejam convosco".

Embora as circunstâncias actuais não permitam proibir a prãtica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" não é um trabalho respeitado nem desejado no seio das famílias, independentemente do estatuto (rico, remediado ou pobre) porque está ferido de uma desconfianca generalizada devido ao caráter ambulante e incerto do negócio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo",  aos olhos do povo, então esta metáfora pejorativa também se aplica às "Bideiras" como vendedeiras "Vende-tudo".

Mas, apesar de tudo isso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona às bajudas e mulheres (noivas) na sua interação com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que é uma dor de cabeçaa social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitários estão confrontados numa época de grandes e rápidas transformações sociais, culturais e económicas, ou seja, na fase da globalização mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular. (...)

terça-feira, 19 de maio de 2026 às 12:43:00 WEST 


António Rosinha
 (tem 165 referências no blogue)

2. Comentário de António Rosinha (*):

(...) Essa imagem de Bideira não é mais nem menos de uma mulher africana a adaptar-se forçadamente à maneira da mulher das feiras europeias.

Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luís Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comércio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.

Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luís Cabral mandava a polícia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.

A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto e Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.

O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.


 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

____________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27980: Fotos à procura... de uma legenda (205): de que etnia ou grupo etno-linguístico seria a jovem mãe do "mininu" Adão Doutor ? O Cherno Baldé diz que não era felupe/jola, mas balanta-mané... Seria ? Uma desafio aos nossos leitores, no Dia da Mãe (que é amanhã)

 


Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quem seria esta jovem mãe de Bigene ? Felupe/jola (lê-se: djola) ou balanta mané ? Ou até senegalesa ?

Esta é uma fotografia histórica fascinante e um testemunho tocante do nosso camarada Adão Cruz. A imagem capta um momento de profunda humanidade no contexto da assistência médica militar às populações locais durante o conflito.  

No entanto, identificar uma etnia específica apenas por traços visuais ou indumentária não é tarefa fácil, à distância de 60 anos (a idade do nosso "Adão Doutor", se for vivo, como desejamos que esteja). Para mais, tratando-se de uma localidade fronteiriça como Bigene, numa região caracterizada por grande porosidade demográfica, cultural e migratória (de um lado o Cacheu, na Guiné-Bissau,  e do outro Casamança, no Senegal).

Mas vale o esforço, tanto mais que amanhã, 3 de maio, primeiro domingo de Maio, é o Dia da Mãe em Portugal e na Guiné-Bissau.


2. Recorde-se a origem desta imagem e da história, feliz, que está por  detrás dela. Foi-nos contada pelo nosso camarada Adão Cruz, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68). E ele foi o protagonista, juntamente com a primeira jovem mãe que "estreou" o "serviço obstétrico" do posto médico miliar montado em Bigene (c. finais de 1966/princípios de 1967). 

O primeiro parto a que ele assistiu deve ter ocorrido no princípio de 1967. E ninguém, da localidade, entendia a língua da jovem mãe:

(...) Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupa­ções que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes (...).

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques por impo­sição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil e a desvirtuação constituía um perigo possível.

Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. (...)

As mulheres de Bigene, e não só de Bigene, pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato.

Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam o cheiro mais nauseabundo que imaginar se pode. 

Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido, eram extremamente graves e frequentes, soube eu mais tarde.

Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi atuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. 

Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas dentro da mesma escala de cultura. (...)

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infeções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efetuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. (...)

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia antirracista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...) (*)



3. Comentário do Cherno Baldé (**)

(...) O Sector de Bigene é predominantemente habitado pelo subgrupo balanta-mané, um substrato de população que resultou da assimilação de balantas sob o dominio mandinga (séculos XVIII-XIX) da mesma forma que aconteceu com os Banhuns, Djolas, Pajadincas, Landumas, Fulas, entre outros cujo processo foi interrompido com a entrada em cena da islamização, da autonomização e ascensão dos fulas e finalmente com as conquistas e partilha dos territórios entre as potências coloniais (segunda metade do séc XIX).

Desta feita, há uma grande probabilidade de a mulher da foto pertencer à etnia dos balantas-mané, um subgrupo em fase de transição entre o animismo e islamismo praticado na região, pelo menos é o que diz a sua postura e vestuário.´

A vila de Bigene, em meados dos anos 66 era um centro de trocas comerciais de produtos da época (amendoim, coconote, peles de animais, mel, cera, tecidos europeus, materiais e produtos para a agricultura entre outros), pelo que albergava uma população um pouco diversificada, empurrando os locais para a periferia fronteiriça.

sexta-feira, 1 de maio de 2026 às 12:05:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Guiné 61/74 - P27979: Fotos à procura... de uma legenda (204): "A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe" (Cherno Baldé)..."Fermero, tua minina, tua mulher parte banana" (José Teixeira)



Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao poste P27970 (*):

(i) Cherno Baldé

Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.

A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na cesta das roupas,  equilibrada encima da cabeça... Na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.

A adornar o peito, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.

Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisão da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico. 

Todavia, para a mãe e as crianças do núcleo familiar, em respeito à dor e sofrimento que constituem o dificil processo do parto, ela será sempre o "Adão Doutor" da sua querida e sofrida mãe.

quinta-feira, 30 de abril de 2026 às 19:48:00 WEST



Guiné- Bissau > Bissau > Maio de 1997 > "Eu e a minha mãe"

Foto (e legenda): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(ii) José Teixeira

Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. E
stava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.

No dia seguinte, a mãe veio trazer-me a menina, logo de manhã, como combinado e trazia também um cacho de bananas. A primeira frase dela foi: "Fermero, tua mulher parte banana". A partir dessa data, ficou a ser minha mulher. Todos os dias de manhã, enquanto estive em Mampatá elas (mãe e filha) vinham visitar-me:  "Tua mulher parte mantenhas". Trazia quase sempre fruta ou uma caneca de água fresquinha que ia buscar à fonte de Iroel para mim.

À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.

Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo: "Pega minina. Leva tua mulher contigo!"

Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.






Guiné > Região de Tombali > Mampatá (1)> 1968> O 1º cabo enfermeiro Teixeira (CCAÇ 2381, Buba e Empada, 1968/70), com a sua inseparável amiguinha Maimuna.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

sábado, 18 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27929: Humor de caserna (257): O anedotário da Spinolândia - Parte XXix Ainda a origem das alcunhas "Caco Baldé" (grafada pelos fulas...) e "Aponta, Bruno" (fixada pelos "tugas") (António J. Pereira da Costa / Cherno Baldé)

1. "Aponta, Bruno!"... era outra das alcunhas do general Spínola, na Guiné Portuguesa, no tempo em que foi governador e comandante-chefe (1968/73) (*)... Embora fosse mais conhecido, dentro e fora da  caserna, por  "Caco Baldé" ou simplesmente "Caco". (Os oficiais do QP  chamavam-lhe o "Velho", o seu nome de guerra era o "Bispo").

Bruno foi o seu primeiro ajudante de campo, o capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno (1935-2022) (morreu como general reformado).

António Spínola (1910-1996) quando foi para a Guiné em meados de 1968, escolheu a dedo os elementos da sua equipa, diz o seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues ("Spínola: biografia", Lisboa:  A Esfera dos livros, 2010, 
 pág. 106).

Uns vieram de unidades e subunidades de cavalaria com provas dadas em Angola: 

  • como Almeida Bruno (que foi cap cav, of inf op / adj, BCAV 745 , Angola, jan 1965/ fev 1967); 
  • ou  como Henrique Bernardino Godinho (cap cav, of op / inf ( adj), e Rui Mamede Monteiro Pereira (cap cav, cmdt da CCAV 295) oficiais que pertenceram ao célebre BCAV 345, que o Spínola comandou em Angola, como tenente-coronel e depois coronel, entre dezembro de 1961 e fevereiro de 1964.

Além de pertencerem à arma de cavalaria, outro critério era terem sido alunos do Colégio Militar, como ele (que foi o nº 33, no período de 1920 a 1928).

Independentemente da arma de origem e/ou da passagem pelo Colégio Militar, pesava muito a  "competência técnico-militar", que ele reconheceu em militares como Firmino Miguel, Belchior Vieira, Lemos Pires, Pereira da Costa, Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Fabião.

A alcunha "Aponta, Bruno!”, associada ao António de Spínola, faz parte da Spinolândia, aquele universo meio mítico, meio pícaro, de humor caserna, que se criou à volta da sua figura (e da sua "entourage") durante a guerra colonial na Guiné,  e mais exatamente no período em que foi governador e comandante-chefe (maio de 1968 / agosto de 1973).

A expressão ficou célebre porque, segundo relatos de militares da época, Spínola tinha o hábito de mandar , ao seu ajudante de campo, o capitão Bruno, “apontar” (registar, tomar nota, ou até preparar algo com rapidez), muitas vezes em tom perentório. 

A frase acabou por se transformar em refrão ou bordão de caserna.

Quanto às anedotas, elas circulam sobretudo na tradição oral e variam bastante, mas seguem quase sempre o mesmo padrão: brincar com a autoridade do general e a prontidão do Bruno.

A expressão nasce, pois,  da presença constante, quase obsessiva,  do seu primeiro ajudante de campo (1968/69), o então capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno:  andava sempre próximo dele, quase como uma extensão operacional.

Os outros dois ajudantes de campo, que sucederam ao Almeida Bruno,  também eram de cavalaria:

  • Cap cav Lourenço Fernandes Tomás (1969/72) ;
  • Cap Cav Carlos Domingos de Oliveira Ayala Botto (1972/73) (nosso grão-tabanqueiro).

2. A imagem que ficou (muito alimentada pelo humor de caserna e pelas memórias de antigos combantentes, além da documentação fotográfica) era a de um Spínola teatral, de monóculo, pingalim, luvas e postura aristocrática, de “cavaleiro”, sempre impecável no seu uniforme, e que apontava alvos, reais ou figurados, com determinação e dramatismo. O Almeida Bruno não lhe ficava atrás na pose.


(i) A anedota típica (em várias versões): circulavam versões diferentes, mas o núcleo era mais ou menos este:

Spínola, em visita a uma posição no mato, observa o horizonte com o monóculo e diz, com ar solene:

— Inimigo à vista!...

Pausa teatral.

— Aponta, Bruno!

O Bruno, sempre pronto, apontava…

E alguém murmurava atrás, meio a sério, meio na galhofa:

— Já está apontado, meu general… agora só falta aparecer o inimigo…


(ii) Ou noutra variante mais mordaz:


— Aponta, Bruno!

— P'ra onde, meu general?

— P'ra qualquer lado, homem! O importante é manter a iniciativa!


(iii) A solução para tudo

Entre soldados, qualquer problema,  desde a merda da comida até à falta de material, era resolvido com a frase milagrosa:

— Não te preocupes, caga nisso… aponta, Bruno!

Ou seja, tornou-se também sinónimo de “deixa andar” ou “alguém há de tratar disso”.


(iv)  A pontaria na carreira de tiro:

Noutra versão mais caricatural, durante a IAO ou na carreira de tiro, se alguém falhava um alvo, um outro gritava:

— Ó pá, isso não é nada!... Aponta, Bruno!

Como se o Bruno resolvesse até as falhas da pontaria dos "tugas".


(v) O apontar… tudo!

Dizia-se que o Bruno levava a ordem tão à letra que, se o general comentasse algo banal tipo “uff!, que calor”, ele pegava logo no famoso  bloco 
“Aponta, Bruno!”...  e lá ficava registado o desafo do comandante-chefe como se fosse uma ordem operacional. 

A piada acabou por evoluir para qualquer coisa como : “Põe-te a pau com o que dizes perto deles, as tuas bocas ainda vão parar ao QG.”


(vi) O milagre  impossível

Numa versão mais absurda, Spínola teria pedido algo completamente irrealista (tipo ter determinado material de engenharia  “para amanhã de manhã” ).

Resposta típica da tropa:

— Não há problema… aponta, Bruno, que há de aparecer, a tempo e horas!”

Era uma forma de gozar com  ordens impossíveis ou absurdas "vindas de cima".


(vii) A cunha:

Entre oficiais mais novos (onde Spínola, de resto, era popular), dizia-se:

— Queres subir na carreira? Não te chateies, não estudes… Aponta, Bruno!

Ou seja, bastava estar perto de quem mandava e cair nas suas boas graças, e ir dizendo ámen (isto é, “sim, meu general”).


(viii) A versão mais atrevida, pícara, brejeira  se não mesmo pornográfica:

Em linguagem de calão, quando alguém se gabava demais,  dava ordens sem sentido ou "se armava em carapau de corrida" (sic), corria o risco de  ouvir:

— Olha,  este!… Pensa que é o Aponta, Bruno, mas vê lá para onde é que apontas! — e virava o traseiro.

Aqui o humor já descambava para o duplo sentido, como era comum na caserna.


(x)  Omnipotência:

Havia ainda a ideia de que o Bruno resolvia tudo:

—  Falta cerveja ?!

— Aponta, Bruno!

— Faltam granadas de obus ?!

— Aponta, Bruno!

— Não há gajas?!

— Aponta, Bruno!

— Porra, nunca mais chega a peluda ?!

— Eh,  pá… essa já nem o Bruno aponta!


3. O que está por trás da graça ?

A piada joga com três traços atribuídos , mal ou bem, a Spínola:

  • encenação e estilo pessoal: ele cultivava uma imagem muito forte, quase cinematográfica (embora, curiosamente, não costumasse andar com fotógrafos atrás, até por que o heli AL III tinha limitações de espaço);
  • comando muito próximo da frente: visitava posições das NT, aparecia de helicóptero quando menos se esperava,  marcava presença no mato junto dos seus soldados;
  • dependência funcional e simbólica do ajudante de campo:  o “Bruno” transformou-se numa personagem, quase como um escudeiro, um verdadeiro "cromo" (secretário, que tomava notas, mas também era guarda-costas, andando sempre armado).

Este tipo de piadas funcionava quase sempre4 como uma válvula de escape. Num contexto duro como a guerra da Guiné, brincar com figuras de autoridade, mesmo que de forma exagerada, caricatural  ou irreverente, ajudava a aliviar a tensão ou de sublimar a revolta.


António de Spínola, governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, à direita, durante o discurso de um líder guineense, à esquerda (c. 1968/69).  Spínola promoveu o diálogo sob o lema: «Por uma Guiné melhor». O deputado ou futuro deputado James Pinto Bull (1913-1970) é visível, em segundo plano, entre o lider guineense que discurs e o Spínola. Possivelmente a foto, de autor desconhecida, foi tirada durante a campanha para as elieções legislativas (para a Assembelia Nacional) de 26 de outubro de 1969. Pinto Bull era o único candidato para o círculo eleitoral da Guiné, proposto pela União Nacional.

Fonte: Adapt de Museu da Presidência da República (com a devida vénia...)


4. Origem da alcunha "Caco Baldé”


A outra alcunha,"Caco" ou  "Caco Baldé, é diferente, mas a sua origem é mais controversa: mas, dizem,  viria  sobretudo do contacto com o meio guineense (os "guinéus") e da forma como os africanos reinterpretavam nomes e figuras portuguesas, muitas vezes com humor muito próprio. Caco seria o monóculo; Baldé, um apelido fula vulgar (como o nosso Silva)... 

Ficamos sem saber se a alcunha lhe foi dada pelos "guinéus", se pelos "tugas". O "Aponta, Bruno" é claramente castrense... Já o "Caco Baldé" teria sido uma expressão grafada pelos fulas, segundo a intuição do Cherno Baldé,

Também aí há histórias, mas são mais difusas e menos padronizadas do que o “Aponta, Bruno!”


António J. Pereira da Costa: 
nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref 

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau;  (iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo;  (iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.








4.1. O António J. Pereira da Costa fez uma leitura interessante sobre esta alcunha, mais recorrente e popular, o "Caco Baldé" (**)

(...) O Caco Baldé acaba por ser um nome carinhoso para materializar a popularidade o prestígio de um chefe. 

Sabemos bem que essa alcunha casa o monóculo (Caco) com um apelido frequente na Guiné (um espécie de Silva ou Oliveira) e nada mais. 

Creio que ele realizou uma aprendizagem e aproximação lúcida à vida do seu tempo. O seu modo de pensar terá evoluído desde o BCAV 345, em Angola (1961/64)  até à Guiné 73 que só poderia desembocar no 25Abril74.

Tenho para mim que era um dos melhores generais dos exércitos europeus. Ele tinha mais de 30.000 homens sob o seu comando e mais de meio milhão de civis à sua responsabilidade. 

Se tomarmos como referência os países da NATO não vejo nenhum que tivesse algo para lhe ensinar, na prática (bem entendido). Exceptuando os americanos que, riquíssimos em meios, perdiam a guerra do Vietname e os franceses que também não ganharam a da Argélia, todos andavam a "brincar aos soldados" em cenários hipotéticos em que o "insidioso, ardiloso e mauzinho In" vinha de Leste a correr pela Europa fora com uma foice numa mão, um martelo na outra e uma estrelinha no alto da cabeça.

Enquanto que ele tinha operações todos os dias (de todos os tipos e formas); logística (má e insuficiente) todos os dias; gestão de pessoal (insuficiente) todos os dias e todo o resto... e era tudo par ter efeitos ontem, porque amanhã já era outro dia com novos problemas. 

Depois veio o período mais conturbado que nenhum dos estrangeiros atravessou, mesmo os que poderiam ter tido intervenção na condução da política dos seus países. Andou mal. Poderia ter andado melhor. Talvez, mas os homens que não fazem asneiras normalmente também não fazem mais nada.

Um Ab.
António J. P. Costa


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 às 18:14:00 WET


4.2. Não menos original  (e seguramente mais surpreendente e etnocêntrica)  é a leitura que faz o nosso amigo Cherno Baldé [foto à direita] (***), que se orgulha da sua origem fula:


(...) Caco Baldé tem origens no meio e língua fulas, é uma alcunha bem conseguida e duplamente interessante.

 Caco, khaco ou haco, originalmente, quer dizer cor castanha (a cor das folhas secas), na língua fula, e servia inicialmente para designar a cor da farda das autoridades administrativas e/ou da tropa colonial.

Mais tarde, para simplificar, este termo seria simplesmente utilizado para designar, de forma disfarçada e caricatural, as autoridades coloniais ou seus representantes.

O apelido Baldé seria lindamente encaixado em acréscimo, certamente, seguindo a lógica da brincadeira muito habitual entre grupos que se consideram primos por afinidade (sanguínea ou territorial), a  “sanencuia”.

Por exemplo, os Djaló são primos dos Baldé por afinidade sanguínea, da mesma forma que o grupo fula, na sua generalidade, é primo do grupo etnolinguístico mandinga que abrange Saracolés, Soninqués, Bambaras etc., por afinidade territorial.

Também é bastante lógico se tivermos em conta que a maior parte dos chefes tradicionais fulas (régulos) e colaboradores das autoridades coloniais, no chão fula, ou pertenciam a esta linhagem ou tinham este apelido, de modo que é uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma caricatura dirigida a linhagem dos Baldé, na minha opinião bem conseguida, por um primo, resultante da brincadeira entre grupos de afinidade, usando a figura da maior autoridade portuguesa, de então, no território da Guiné.

Não tenho a certeza e trata-se de uma conjectura da minha parte como pista para uma pesquisa mais aprofundada. (...)

(Revisão / fixação de texto, títulos: LG)

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